O Sentido

Mount Everest

Foto: Luca Galuzzi - www.galuzzi.it

Chomolungma. A Grande Mãe. O símbolo mais alto da humanidade na conquista dela mesma – e também em sua queda.

Ao vencer o desafio, o Homem não lembrou dos que vieram antes dele. Tampouco pensou nos que viriam a seguir, passos sobre seus passos, andando de forma hesitante no mesmo solo por onde andou. Tomado pelo triunfo, o Homem de nada soube senão de sua vitória, e deixou-se embebedar de si mesmo, rindo do Desafio que, enfim derrotado, apenas observava em silêncio, sem pesar. Do topo do mundo, o Homem ria do Desafio que antes tinha temido, que muito havia enfrentado, que tanto havia desejado superar. Venci, dizia a si mesmo – embora na verdade o dissesse ao Desafio, como forma de humilhá-lo, tripudiar sobre seu silêncio. Venci, dizia o Homem. Venci.

Muito tempo se passou. E do Desafio hoje quase nada resta. Pelo caminho, nunca mais houve um pé que pisasse o solo com respeito; nunca mais houve uma alma que contemplasse o Desafio e dele tirasse ânimo, respeito ou sabedoria. Vencido o Desafio, chegar até ele transformou-se em banalidade, divertida trilha para os que por ela pudessem pagar. Subiam, centenas e milhares, até o topo do Desafio – sorriam, tiravam fotos, repetiam pequenos e absurdos rituais. Subiam e desciam, sem parar. E o Desafio, silencioso e já quase invisível, respeitava a própria derrota – mas não conseguia se furtar de lembrar de outro tempo, de outros Homens, que haviam vindo cheios de respeito e reverência em meio à neve e ao frio. Homens que não tinham vencido, mas que tinham sido maiores que o próprio Desafio, Homens que o Desafio amava e respeitava como filhos e irmãos de um maior Sentido.

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