Sobre os protestos

Foto: Yamini Benites

Foto: Yamini Benites

O tempo de explicações passou. Não há mais espaço para responder sobre os motivos dos protestos que se espalham pelo país. Não há mais tempo para tentar esclarecer que alguns centavos não são apenas alguns centavos, que o aumento de passagens é mais que o aumento de passagens, que árvores não são apenas árvores e que um tatu de plástico, embora seja apenas um tatu de plástico, é bem mais do que um tatu de plástico. Passou a época em que fazia sentido dizer que um vidro quebrado não é obra de milhares ao mesmo tempo, e não cabe mais argumentar para explicar que a violência da Brigada, por vir diretamente do Estado, é sempre mais grave, mais preocupante e terrível do que milhares eventuais atos de vandalismo, baderna, desordem e outros chavões do tipo. Não é mais tempo dessas coisas. Simplesmente porque o tempo acabou.

Acredito que, a partir de agora, quem ainda não tinha entendido vai ter que dar um jeito de entender. Vai ter que olhar as fotos de jornalistas com olhos estourados por bala de borracha ou levando spray de pimenta no rosto em pleno exercício profissional e formar uma opinião sobre isso. Vai ter que olhar imagens de pessoas de joelhos, mãos para cima, levando bala de borracha e bomba de gás e pensar um pouco a respeito. Vai ter que levar em conta o fato de que foram presas pessoas portando vinagre em SP, que invadiram um restaurante em Porto Alegre para prender quem estava fugindo da confusão criada pela própria polícia, que crianças e idosos foram agredidos em nome da suposta proteção de seus próprios interesses. Vai ter que olhar mais para as redes sociais e menos para a televisão e para os jornais. Vai precisar olhar para as pessoas e enxergar nelas outras pessoas, ouvir o que elas dizem, entender o que elas sentem. Vai precisar compreender que é cada vez mais gente na rua, cada vez mais indignação, e que o discurso político está cada vez mais desligado do que as pessoas querem, necessitam, exigem. E vai ter que entender tudo isso por si só, a essa altura. Sozinho.

Porque não dá mais tempo de explicar. A onda está chegando, ganhando volume, e não vai fazer uma pausa para que algumas pessoas tenham tempo de entendê-la. Ela vai fazer exatamente o que ondas costumam fazer – levar tudo e todos de arrasto. É um vagalhão que encontrou no aumento de passagens uma materialização mais evidente, mas que diz respeito a inúmeras outras coisas – desde índios sendo mortos em nome de latifúndios até jovens apanhando numa área pública em nome de um totem de borracha. Dá testemunho de um desencanto profundo, genuíno e potencialmente violento de boa parte da população com o discurso do Estado, completamente desconectado da realidade que as pessoas vivem diariamente, de seus anseios e necessidades. Porque o Estado é cada vez mais um serviçal do poder financeiro, e cada vez esmaga mais as pessoas para atender interesses cada vez mais irreais e desumanos. E cada vez menos gente consegue suportar. É uma crise de modelo e de representação, e ela não vai tomar conta do Brasil: ela já tomou. Do mundo todo, na verdade. E nada adiantará gritar contra os vândalos, ridicularizar suas demandas ou diminuir sua relevância. Porque a onda ganhou corpo, e o discurso foi além das próprias limitações: agora, a indignação alimenta a si mesma. E é por isso que o Estado é cada vez mais brutal e que a reação é cada vez mais barulhenta, volumosa e não raro violenta: porque não há, nessa conjuntura, quem possa recuar. A coisa vai crescer até onde puder, e então explodirá. E a nós não cabe senão assistir ou tomar, de alguma forma, parte nisso.

Não é mais tempo de explicar nada.

É o melhor dos tempos, é o pior dos tempos, e são todos de uma vez só.

22 ideias sobre “Sobre os protestos

  1. Ótima análise, Igor! Os discursos que tentam desqualificar as manifestações se tornaram irrelevantes e sem sentido diante do que está acontecendo. Já não é mais possível ignorar a realidade das ruas. Até mesmo os grandes veículos de comunicação se viram obrigados a modificar o tom da cobertura. Teremos dias interessantíssimos pela frente.

  2. Meu caro, não te conheço pessoalmente, ainda que tenhamos vários amigos em comum. Queria manifestar um elogio ao teu texto. Gosto muito de escrever e, por isso, fui levado a concretizar esse comentário. Tuas palavras sintetizam uma leitura muito perspicaz acerca da realidade contemporânea. Eu gostaria de tê-las redigido. Sigamos. Um abraço.

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  5. Parabéns pela coluna, finalmente consigo ver uma luz no fim do túnel. Eu critiquei os primeiros protestos pela passagem de ônibus, porque achei que era muito pequeno o objetivo de só baixarem as passagens. Agora quando os protestos são pela reforma de um sistema falido para as pessoas comuns e bom para poucos, com um ideal que deseja transformar nossa sociedade, eu consigo não só ver o que pode vir por aí, mas me emociono, pois finalmente parece que acordamos de um sono profundo. Que ninguém economize uma gota de suór em nome de um comodismo. Não viemos a esta vida para sermos meros espectadores e sim para transformar este planeta em lugar melhor para todos. E que a palavra MUDANÇA, sirva como horizonte, e quando ela for alcançada, não seja usada como o PT, que por muitos anos pregou uma coisa, e ao chegar ao poder, abusou do mesmo. Que sua coluna junto a tantas outras, cheguem a quem precisa lê-las. Abraço

  6. Bom texto, eu espero que tudo isso sirva para revermos o nosso modelo de estado impositivo em nossas vidas, se realmente precisamos dele.

    Será que todos os abusos, corrupção e mal serviços prestados de que sabemos continuariam se tivéssemos a opção de não pagar essa instituição?

    Espero que a população se dê conta de quem é realmente o opressor

  7. Sim. Fica claro para aqueles que sabiam na prática ou na teoria que o que realmente está em jogo em todo o mundo são projetos de cidade, de sociedade. Nossas sociedades não se sustentam, as promessas do capitalismo não se cumprem, o planeta está a um passo da catástrofe ambiental e social, digo, ja a vive, está um passo do caminho sem volta. Um passo de deixar o ambiente natural de uma forma que ele não possa mais se renovar. Um passo de deixar a situação social e cultural no caminho de fascismos permanentes e cotidianos, da sociedade do controle através. O projeto faliu, agora se abre o espaço doloroso onde novos projetos se colocam à mesa: ou orientamos nossas cidades para o público, o coletivo, ou para o privado naturalizando de vez a irracionalidade da miséria e desigualdades. É disso que se trata essa onda, nada de tão novo, já vem sido falado a muito tempo na literatura, cinema, reflexão acadêmica, e nas mesas de bares.
    A outra coisa que fica clara é que o estado, através de sua força repressora, a polícia, não serve para dar segurança às pessoas, mas sim para defender o privado: o projeto de cidade e sociedade ordenada para a lógica do cada um por sí. Polícia serve para manter uma ordem, uma direção dada por poucos e que só favorece uns em menor número ainda. As populações da periferia já sabem disso na prática cotidiana, já que a polícia brasileira é uma das que mais mata no mundo, e age como se estivesse em guerra contra a população das periferias (o termo guerra está na boca da polícia).

    Concordo, o melhor dos tempos: estamos acordando para a realidade por trás do véu, e o pior dos tempos: os reacionarismos e proto-fascismos se afloram ás últimas consequências.

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  9. VAMOS GRITAR BEM ALTO AOS DIVERSOS CANTOS DO NOSSO PAÍS: QUEREMOS UM PAÍS PARA TODOS OS BRASILEIROS, NÃO SOMENTE PARA DOIS GRUPOS: “QUEM ACHA QUE DETÉM O PODER POLÍTICO E AOS DETENTORES DO PODER ECONÕMICO” CHEGA, VAMOS DAR UM BASTA!!!

  10. Muito bom. O Sul21 vem me surpreendendo positivamente, e não só o Sul21, mas também o PortoImagem, respectivamente, esquerda e direita do discurso da mídia independente portoalegrense. As bandeiras dos partidos estão escondidas, como se fosse vergonhoso defender algum partido neste momento. E, de fato, é.

    Por outro lado, o ativismo apartidário não é um sinal de que se deixou de fazer política ou acabaram-se as ideologias. Pelo contrário; há muitos anos, talvez desde o Diretas Já (caras pintadas contam?), não se vê uma mobilização popular tão grande a favor da democracia.

    O estatuto do nascituro, a pec 37, a lei do terrorismo e a copa são alguns dos ingredientes que engrossam o caldo da indignação no país. Estávamos assistindo de camarote um país sendo transformado em um totalitarismo com notas de fundamentalismo cristão regado a pão e circo para distrair os explorados. Agora é o momento de tentarmos reverter esse ciclo.

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  12. Igor, gostaria de lhe agradecer por ter escrito um texto tão tocante como este em uma época – mesmo recente, rs – em que as opiniões estavam tão instáveis. Sou professora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e tive a oportunidade de levar o seu texto para as minhas turmas do 9º ano EF na sexta e no sábado. A minha proposta era apenas que os alunos lessem e refletissem sobre o assunto, visto que o ato seria na segunda-feira e muitos ainda não tinham opinião sobre o assunto – isso era o que eu pensava. Pedi que os alunos se organizassem para ler de acordo com as suas emoções: quando um aluno parava, outro continuava, se tivesse se sentido tocado pelo que havia acabado de ouvir. Caso contrário, eu leria. Resultado: quase todos os alunos leram, não tivemos nenhum momento de silêncio e, por vezes, eles acabaram se sobrepondo na leitura. e O melhor resultado: todos eles tinham uma opinião sobre o assunto.

    ;)

    • Daiane, eu não saberia mensurar em palavras o quanto isso me deixa surpreso, feliz e, acima de tudo, grato. Jamais esperei que o texto teria tamanha abrangência. Que bom que, todos juntos, estamos conseguindo aos poucos construir uma compreensão que possa transformar esses dias em algo que nos renove como sociedade e como seres humanos. Por favor, repasse aos seus alunos os meus melhores sentimentos e a minha gratidão. Obrigado, mesmo e de verdade <3

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